ANTONIO SOARES-RELATO
Lula e o fetiche político pela pobreza. Aos 14 anos, vivendo em uma cidadezinha do interior do estado do Tocantins, chamada Miranorte, assisti a um comício do influente político e então prefeito local, Stalin Bucar. Tratava-se de um homem branco, abastado e bem-sucedido, cuja retórica se sustentava quase inteiramente em falar sobre a miséria do povo. Do alto do palanque, ele desfilava seu catálogo de carências populares: dizia que o pobre acorda cedo sem ter o que tomar no café da manhã, não come carne regularmente, passa a semana inteira com a mesma roupa e sequer conhece vestuário de marca. Eu ouvia aquilo na plateia e me reconhecia na precariedade: morava em uma casa de tijolo cru, com goteiras no teto, sem luz elétrica, sem água encanada, sem eletrodomésticos e sem garantias para a próxima refeição. No entanto, em vez de gratidão ou cumplicidade, senti profunda humilhação. Mesmo sem base teórica em economia, filosofia ou ciências políticas, algo dentro ...