ALÉM DA COR DA MESTIÇAGEM
ALÉM DA COR DA MESTIÇAGEM* CRÔNICA por Paulo Rebelo Eu jamais tive problemas com minha cor morena. Sou um mestiço; uma temperada mistura entre o branco anglo-saxão, o negro e o indígena amazônico. Sou egresso de uma família, vinda dos confins da Amazônia, cujos antepassados eram os nordestinos, os WALLACES e os CAMPBELLS, mas não me pergunteis nada sobre isso, pois se perderam nas brumas do tempo. Deles pouco ou nada sei. Às vezes, sou tomado por um sentimento atávico, como se eu não fosse daqui, tivesse vindo num navio negreiro ou de imigrantes, escravo, aventureiro ou degredado, mas a impressão logo se desfaz, deixando para trás o rastro de uma pálida sombra de meu longíquo passado. Todos chamavam-me “preto”. Morávamos num vila de casas conjugadas de classe média baixa, no meio de um quarteirão, imprensada entre duas belas mansões de comerciantes árabes libaneses em cada esquina. Essa era a visão que eu tinha de riqueza tão próxima e tão distante de mim. Em uma delas havia um be...