FALE

đź–‹đź–‹đź–‹

POEMA /
FALE!

(alĂ´, faz tempo,
mas como nĂŁo lembrar de ti?)

Fale-me de ti,
o que fizeste,
por onde andaste
todo esse tempo.

Fale-me de ti,
fale menos dos outros.
Fale-me das coisas boas,
nĂŁo das coisas ruins,
de teus sonhos,
nĂŁo teus pesadelos.

Mas, se quiseres falar sobre isso,
te escutarei,
serei paciente,
pois
eu, também,
tenho meus temores.

Fale-me de tuas aspirações,
nĂŁo de tua abulia.
Fale-me de teus amores,
teus pecadilhos,
de tuas pueris ilusões
que aliviam tuas frustrações,
tuas dores,
não das desilusões,
teus rancores.

Mas, se chorares,
estarei aqui do teu lado.

Fale-me de tuas viagens,
o que mais te encantou,
o que de exĂłtico degustaste,
tuas grandes aventuras,
que lembranças compraste,
que lĂ­nguas escutaste.

Fale-me
de teu cĂ´njuge,
teus filhos,
de teu lar,
lazer,
teus velhos pais,
nĂŁo de teus enganos,
teus inimigos,
desafetos,
teus medos,
os maus sinais.

Mas, se isso te aflige,
conte comigo,
mesmo estando distante,
teu ombro amigo, 
entĂŁo fale.

Fale-me de tuas crenças,
de tuas bênçãos,
de tua espiritualidade,
a verdade de tua alma,
no que acreditas,
a realidade,
nĂŁo de teus bens,
tuas propriedades,
cujo valor Ă© relativo,
pois o espĂ­rito,
melhor estimado,
nĂŁo tem materialidade,
a riqueza dos homens temporal e finita,
mera banalidade.

Fale-me de tuas curiosas
idiossincrasias,
tuas manias,
dos filmes
e mĂşsicas que gostas,
nĂŁo de carros,
das jĂłias,
dĂłlares.

Falemos de futebol, 
da ideologia polĂ­tica que abraçamos, 
mas por favor,
nĂŁo de candidatos, 
gente que mal conhecemos, 
Ă© estranho que os defendamos.

Ainda assim,
Ă© claro,
mesmo pensando diferente,
sempre haverá tempo
e espaço para a amizade
e, se desejares,
um dia
poderemos sentar a beira do mar 
e conversar,
enquanto tempo passa matando a saudade.

Paulo Rebelo, o médico poeta.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O BURGUĂŠS E O METALĂšRGICO

PARA DEPOIS

CORPO CELESTE