O BURGUÊS E O METALÚRGICO Por Paulo Rebelo A PARTIR da chegada de Lula ao poder, curiosamente, houve o aparecimento de um novo tipo de classe média dissidente da classe média clássica ou tradicional; a distinta "burguesia socialista" (a associação das palavras burguesia e socialismo parece estranha, já demonstrando aí um grande paradoxo). Essa gente privilegiada, articulada e influente com sua agenda progressista é a mesma que romantiza a pobreza e relativiza a crime, vendo intrincado silogismo nisso. Essa nova classe média tem suas peculiaridades a serem descritas mais adiante. Arrebatada pelo fato de um metalúrgico e sindicalista, homem simples do povo, ter chegado à presidência do país (pela terceira vez, já pensando na quarta), a classe média, dita "esclarecida", rendeu-se completamente ao apelo popular da imagem de Lula, tido por ela como um grande humanista. Ela mesma, outrora tão alheia e indiferente às agruras das classses inferiores, através de dele sente...
PARA DEPOIS Por Paulo Rebelo Vim ao mundo Depois que ele estava feito Mas não estava concluido. Estava mal acabado, Reclamei! Tinha muitos defeitos; Um pouco deformado. Apressado, Achei que pudesse refazê-lo e, Inicialmente, pus-me a trabalhar Às cegas e como poucos, E não conseguindo, Gritei em praça pública Que nem louco, Até ficar rouco. Com o tempo, Fui deixando tudo p depois: Era mais conveniente E sensato, Depois que dormisse, Depois que acordasse, Que comesse E descansado, Pensasse… Não tive mais pressa Para nada; Nem mais filosofava. Deitado na rede, Procrastinava. Agora tudo fazia sentido; A vontade findou; O sonho passou depressa; Nada mais interessa; O mundo não mudou. O filme acabou… Paulo Rebelo, o médico escritor da Linha do Equador. Inspirado em DEPOIS? de Antonio Lobo Antunes, médico e escritor. Estátua: O PENSADOR de Rodin.
DOM QUIXOTE E SANCHO PANÇA: a imagem do governante e o povo Acredito que haja um Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes em cada um de nós. Quem de nós não fantasia? Enquanto Quixote é sonhador e fantasioso, Sancho Pança, seu fiel escudeiro, é realista e sério. Mas, na medida em que o relato do livro avança ele vai se perdendo cada vez mais, e, aos poucos, vai aceitando as alucinações delírios do cavaleiro. Poder-se-ia, então, dizer que Sancho Pança é o povo, que decidiu acompanhar Dom Quixote após este ter prometido que lhe daria o governo de uma ilha. Aliás, prometer picanha com cervejinha não é mera coincidência. Mesmo pobre, continua fiel a Dom Quixote como no ditado dos cavaleiros, parafraseado em " o brasileiro nunca foge a uma luta; nunca desiste". Sancho nunca fugiu de Dom Quixote. Nunca lhe faltou com o respeito, sendo sempre fiel. Normalmente andava em cima de um burro, junto de Dom Quixote, que andava em cima do seu cavalo, o Rocinante, o que marca umas das...
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