A PARTIDA (2026)
A PARTIDA
(Um homem e sua consciência… um barco ancorado no porto)
● Ainda tenho tempo, diz seguro de si aquele homem.
○ E por que tens tanta certeza?, pergunta sua consciência. Melhor seria se tu te perguntasses: “quanto tempo ainda tenho antes da partida?”
● Então, ainda tenho tempo?!
○ Certamente, sim! Todavia, não como tu imaginas. Só tens um breve e intenso tempo nessa paragem. Parece interminável, mas não todo o tempo do mundo como te fazes acreditar, sentir e o que é pior, agir sem pensar!
● Diz-me, desperdiço meu tempo?
○ Creio que sim, pois tudo a seu tempo!
● Mas, quem me garante? Faço o minha própria tábua da maré e, às vezes, sou como esse barco que ancorado no porto, parecendo que nunca vai zarpar e de repente, livre, parte sem dizer adeus, não esperando por ninguém…
○ Pois é como funciona; assim somos nós! Aparentemente firmes, mas inconstantes, instáveis e imprevisíveis. É a sina.
● Sou cúmplice dos homens livres; destarte, o quero livre e isento de amarras assim como eu, mas por Deus, ele que de longe veio, diga-lhe que não parta; que partamos juntos, pois somos irmãos da liberdade; como ele um dia desejo partir para outros mares distantes e desconhecidos e aprender a viver.
○ Todavia, se me perguntares: para onde o barco vai, de nada adiantará! Não terás resposta mesmo, pois não há ninguém no porto para te dar informações sobre o horário de partida, chegada nem quanto ao destino! Só verás um burburinho de um vem e vai de gente e mais gente…isso não te assusta?
● Ah! São eternas as minhas dúvidas que me provocam uma perturbadora onda de insegurança, porquanto são o resultado de outras tantas inquietantes dúvidas; trazem consigo somente a incerteza atroz. Não as quero cultivar, pois o meu medo é ficar paralisado e jamais um dia poder sair desse lugar como esse barco amarrado ao cais há dias.
○ Fazei-o bem! Aceite o teu destino ou crie o teu caminho. Não dependa disso para partir.
● Só tenho uma certeza absoluta: nesse momento não desejo partir; não agora que aqui me encontro tão bem, livre, parecendo viajar eternamente sem sair desse lugar…
○ Impossível! Como te disse, não tens todo o tempo do mundo! Um dia tu vais partir mesmo com ou sem o barco, mas que este jamais te esperará ad eternum.
● Então, ora! Que o barco parta definitivamente ou me aguarde. Sou tão livre quanto ele!
○ Até quando, então?
● Sempre que minha alma quiser, pois asseguro-te que sou o comandante de meu próprio destino; ainda tenho muito que ver, sentir e viver!
Paulo Rebelo, o médico escritor e poeta
Nota: o texto são divagações. O meu falecido pai era prático do Rio Amazonas. Nas férias de fim de ano, costumava a levar-nos com ele nos gaiolas em suas lentas e longas viagens subindo o rio. Avistávamos macacos, preguiças, lontras, peixes, a revoada de periquitos barulhentos, papagaios, araras e tucanos. Tenho uma ainda vivo na memória o grito "joga o pão cunhado!", no estreito de Breves/PA.
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