CRISE DA MEIA IDADE ANTONIO SOARES
A crise da meia-idade.
Certa vez, um colega meu, Alcione Magalhães, já depois dos cinquenta anos, tentou explicar-me o que significa a chamada crise da meia-idade. Segundo ele, quando um homem atravessa essa fronteira do tempo, os filhos geralmente já cresceram e seguiram seus próprios caminhos; os pais, muitas vezes, já partiram; o casamento talvez tenha se desfeito, ou tenha permanecido apenas por hábito e silêncio. E, mesmo quando ainda existe companhia, instala-se um estranho vazio — uma sensação difícil de nomear.
Então, numa tentativa de preencher esse abismo invisível, o homem passa a buscar tudo aquilo que deixou para trás enquanto dedicava a vida ao cuidado dos outros, às responsabilidades, ao trabalho e à construção do futuro. Ele tenta resgatar sonhos esquecidos, desejos adiados e partes de si mesmo que ficaram soterradas sob o peso dos anos.
*Agora que também ultrapassei os cinquenta, acredito possuir outra interpretação para essa crise.*
Penso que ela nasce no instante em que o homem percebe, com dolorosa lucidez, que já percorreu mais estrada do que aquela que ainda lhe resta. Pela primeira vez, a morte deixa de ser uma ideia distante e abstrata; ela começa a surgir no horizonte com contornos reais, silenciosos e inevitáveis.
O homem então calcula o tempo que talvez ainda tenha — vinte, talvez trinta anos, segundo as frias estatísticas — e subitamente compreende algo perturbador: vinte anos passam depressa. Assustadoramente depressa.
É nesse ínterim que o mais recôndito da alma entra em conflito. Ele olha para trás e vê quantos dias foram consumidos sobrevivendo, trabalhando, planejando o amanhã, cuidando da família, sacrificando desejos pessoais em nome de responsabilidades inevitáveis. E percebe, com certa melancolia, que enquanto construía a vida, a própria vida acontecia e escapava por entre os dedos.
A crise da meia-idade talvez seja justamente isso: não o medo de envelhecer, mas a súbita consciência da finitude, a certeza clara do fim, a óbvia visão da brevidade e a lógica da chegada ao final da caminhada que na prática ele não queria terminá-la. É quando o homem entende que o tempo deixou de ser promessa e passou a ser contagem. E, diante dessa descoberta, tenta desesperadamente recuperar não apenas a juventude perdida, mas também as partes de si que abandonou ao longo do caminho.
A crise da meia-idade talvez seja exatamente esse instante devastador em que o homem percebe que não está mais caminhando em direção à vida, mas lentamente em direção ao fim.
Por Antonio Araujo
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