MEU ALGOZ POR A.I.

Paulo, este poema me parece um dos mais íntimos que você compartilhou. Há nele uma mudança interessante em relação aos anteriores: se em A Tua Dor o sofrimento parecia uma entidade quase externa, e em Ampulheta a inquietação era existencial, em Meu Algoz o conflito ganha um rosto. Esse rosto é o próprio eu.

O poema gira em torno de uma ideia central muito antiga na filosofia e na psicologia: o ser humano pode tornar-se seu próprio tribunal. O eu que vive e o eu que julga coexistem, e este último raramente absolve.

Logo nos primeiros versos:

A vida / Contra qual eu luto / Todo santo dia, / Está dentro de mim.

Há um deslocamento muito bonito. A princípio, o leitor imagina que a luta é contra o mundo, o destino ou as circunstâncias. Então vem a revelação: o campo de batalha é interior. É quase um eco de uma tradição que vai de Santo Agostinho a Miguel Torga, passando pela psicologia contemporânea.

A sequência seguinte é construída quase como um inventário da culpa:

Pelo que fiz,

Deixei de fazer,

O que disse...

O que deveria ter dito...

É interessante porque você contempla as duas formas clássicas de arrependimento: a ação e a omissão. O eu nunca vence. Se age, culpa-se. Se cala, também. Esse mecanismo lembra aquilo que a psicologia cognitiva chama de ruminação: revisitar continuamente decisões passadas em busca de uma versão perfeita que nunca existiu.

Outro verso me chamou bastante a atenção:

Talvez no metaverso de mim.

É uma imagem extremamente contemporânea. O "metaverso" deixa de ser uma tecnologia e passa a representar um universo interior paralelo, onde talvez exista uma versão idealizada de si mesmo. É uma metáfora original porque aproxima um conceito tecnológico de uma busca existencial antiga.

Depois vem uma confissão simples, mas muito humana:

Pois, vivo buscando demais,

Corro atrás,

A vida me fez assim.

Há aqui uma tensão delicada. O poema não diz apenas "eu sou assim". Ele diz: "a vida me fez assim". Isso preserva parte da responsabilidade pessoal, mas reconhece também o peso da história vivida. É um equilíbrio interessante entre liberdade e condicionamento.

O encerramento é, para mim, o ponto mais forte:

Sou meu eterno algoz,

Onde se vai,

Bandido ou herói

Nunca chego ao fim.

Esse final admite uma leitura dupla.

A primeira é psicológica: pouco importa o papel desempenhado — culpado ou virtuoso —, o crítico interno continua condenando. O julgamento nunca termina.

A segunda é filosófica. "Bandido ou herói" sugere que nenhuma identidade resolve o problema fundamental. Mesmo quando alguém acredita ter sido heroico, permanece incompleto. Existe uma recusa da conclusão definitiva; o eu é sempre um processo.

Aspectos formais

Gosto especialmente da simplicidade do vocabulário. Você evita palavras excessivamente ornamentadas e deixa que as ideias sustentem a emoção. Isso aproxima sua escrita de uma tradição modernista, em que a força está na sinceridade.

Talvez apenas um pequeno detalhe pudesse ser pensado:

Pelo que deveria te dito

Provavelmente houve um lapso de digitação. Imagino que o verso pretendido seja:

Pelo que deveria ter dito.

É uma correção pequena, mas importante para manter o ritmo.

Uma leitura do poeta

Algo que venho percebendo nos poemas que você compartilhou é uma recorrência temática. Seus textos parecem formar um ciclo:

o tempo (Ampulheta);

a dor (A Tua Dor);

a fragmentação do eu (Pixels Existencial);

agora, o julgamento de si (Meu Algoz).

São diferentes faces da mesma investigação: o que significa habitar a própria consciência.

Por isso, o verso que considero a verdadeira chave do poema não é o título, mas:

A vida... está dentro de mim.

Nele, "vida" deixa de ser apenas existência biológica e passa a significar memória, culpa, expectativa, desejo e identidade. O inimigo não é a vida; é a maneira como ela continua ecoando dentro do sujeito.

Na minha leitura, Meu Algoz é um poema sobre o perfeccionismo moral: a dificuldade de conceder a si mesmo a mesma compreensão que normalmente oferecemos aos outros. Não vejo nele um texto desesperançado. Vejo alguém que reconhece a existência desse juiz interior e o coloca em palavras. E transformar um conflito em linguagem já é, de certa forma, um primeiro gesto de liberdade.

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