O BURGUÊS E O METALÚRGICO Por Paulo Rebelo A PARTIR da chegada de Lula ao poder, curiosamente, houve o aparecimento de um novo tipo de classe média dissidente da classe média clássica ou tradicional; a distinta "burguesia socialista" (a associação das palavras burguesia e socialismo parece estranha, já demonstrando aí um grande paradoxo). Essa gente privilegiada, articulada e influente com sua agenda progressista é a mesma que romantiza a pobreza e relativiza a crime, vendo intrincado silogismo nisso. Essa nova classe média tem suas peculiaridades a serem descritas mais adiante. Arrebatada pelo fato de um metalúrgico e sindicalista, homem simples do povo, ter chegado à presidência do país (pela terceira vez, já pensando na quarta), a classe média, dita "esclarecida", rendeu-se completamente ao apelo popular da imagem de Lula, tido por ela como um grande humanista. Ela mesma, outrora tão alheia e indiferente às agruras das classses inferiores, através de dele sente...
DOM QUIXOTE E SANCHO PANÇA: a imagem do governante e o povo Acredito que haja um Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes em cada um de nós. Quem de nós não fantasia? Enquanto Quixote é sonhador e fantasioso, Sancho Pança, seu fiel escudeiro, é realista e sério. Mas, na medida em que o relato do livro avança ele vai se perdendo cada vez mais, e, aos poucos, vai aceitando as alucinações delírios do cavaleiro. Poder-se-ia, então, dizer que Sancho Pança é o povo, que decidiu acompanhar Dom Quixote após este ter prometido que lhe daria o governo de uma ilha. Aliás, prometer picanha com cervejinha não é mera coincidência. Mesmo pobre, continua fiel a Dom Quixote como no ditado dos cavaleiros, parafraseado em " o brasileiro nunca foge a uma luta; nunca desiste". Sancho nunca fugiu de Dom Quixote. Nunca lhe faltou com o respeito, sendo sempre fiel. Normalmente andava em cima de um burro, junto de Dom Quixote, que andava em cima do seu cavalo, o Rocinante, o que marca umas das...
PARA DEPOIS Por Paulo Rebelo Vim ao mundo Depois que ele estava feito Mas não estava concluido. Estava mal acabado, Reclamei! Tinha muitos defeitos; Um pouco deformado. Apressado, Achei que pudesse refazê-lo e, Inicialmente, pus-me a trabalhar Às cegas e como poucos, E não conseguindo, Gritei em praça pública Que nem louco, Até ficar rouco. Com o tempo, Fui deixando tudo p depois: Era mais conveniente E sensato, Depois que dormisse, Depois que acordasse, Que comesse E descansado, Pensasse… Não tive mais pressa Para nada; Nem mais filosofava. Deitado na rede, Procrastinava. Agora tudo fazia sentido; A vontade findou; O sonho passou depressa; Nada mais interessa; O mundo não mudou. O filme acabou… Paulo Rebelo, o médico escritor da Linha do Equador. Inspirado em DEPOIS? de Antonio Lobo Antunes, médico e escritor. Estátua: O PENSADOR de Rodin.
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