A DANÇA de HENRY MATISSE
Amigo-A,
Após muito sofrimento e depois de muita trazodona, lítio, clonazepam e sertralina, que nunca me curaram, por acaso, encontrei o tratamento ideal para mim: a escrita literária.
Acabaram a angústia, o medo, insegurança, ódio e a melancolia, menos a insônia que se tornou minha companheira nas longas noites de solidão. Agora é assim: impreterivelmente, acordo e me desperto entre três e meia e quatro horas da manhã. É como se o próprio Deus batesse em meu ombro e me dissesse: 'tá hora de levantar; escreva o que vou te ditar, por favor.
Divido com o Amigo-A mais um poema existencial que acabei de escrever nessa madrugada insone: A DANÇA.
🖋A DANÇA
A vida inteira
A gente vive rodeado de coisas boas e ruins,
Vivendo apressado,
Preocupado,
Submetido a altos e baixos,
Verdadeira montanha-russa
de emoções,
Como se fossem isso
Provas escolares mandatórias
De ciências, matemática,
História do Brasil e filosofia,
Quando um dia a gente vai bem,
Outro mais ou menos
Depois vai muito mal,
Parecendo conversa de surdo-mudo
Batuque na cozinha
Gira-gira para crianças,
Mas era só uma prova de vida
Algo tão comum e banal
Onde rodam inocentemente
Lado a lado
Alegria, felicidade,
Tristeza e melancolia
Em meio ao rancor, raiva, espantos
Desequilíbrio e falta sabedoria.
Assim fico me perguntando:
Que brincadeira de mau gosto é essa
Que eu tenha que mentir,
Fingir que não vi
Esconder meus sentimentos
Ter vergonha de meus pensamentos
Fechar os olhos aos absurdos
E às maldades do mundo
Dançar conforme a música
Para seguir adiante na vida
De duras verdades
Sortilégios e encantamentos?
Paulo Rebelo, médico escritor e poeta da Linha do Equador
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