BOLSONARISMO X LULISMO
Alô, bom dia. Diga-me, por que motivo, por que razão é que de um tempo para cá bolsonarista é sinônimo de gente que não presta? Gente da ultradireita, da extrema direita. E lulista é sinônimo de gente que presta, gente liberal, liberal nos costumes, liberal politicamente. Mas conservadora no que diz respeito à economia. Ou melhor, até dizendo, sendo a favor de um Estado socializanteBom dia! Sua pergunta é muito interessante porque toca em um fenômeno que ultrapassa a disputa entre Lula e Bolsonaro: a transformação das identidades políticas em identidades morais.
Vou começar por uma distinção que considero fundamental para compreender o problema: uma coisa é ser de direita ou de esquerda; outra é ser democrático ou autoritário; outra, ainda, é ser uma pessoa ética ou antiética.
Essas três dimensões não são necessariamente coincidentes.
Quando alguém afirma que todo bolsonarista é uma pessoa que não presta, ou que todo lulista é uma pessoa de bem, está fazendo uma generalização moral a partir de uma identificação política. Isso não se sustenta logicamente.
O mesmo vale no sentido inverso: não se pode considerar todo lulista desonesto, corrupto ou autoritário, nem todo bolsonarista democrático, honesto ou defensor das liberdades.
A filiação política não é certificado de caráter.
### 1\. Como se construiu essa associação?
Há alguns fatores importantes.
A) A polarização transformou adversários em inimigos morais.
O Brasil passou a viver uma disputa em que os dois campos não se limitam a dizer que suas propostas são melhores. Frequentemente, passam a atribuir defeitos morais ao adversário.
O raciocínio acaba sendo este:
* Se sou lulista, estou do lado da democracia, da inclusão social, da tolerância e dos direitos humanos.
* Se sou bolsonarista, estou do lado do autoritarismo, do preconceito, da intolerância e da ameaça à democracia.
E o inverso também acontece:
* Se sou bolsonarista, sou patriota, defensor da família, da liberdade e da honestidade.
* Se sou lulista, sou comunista, corrupto, defensor de privilégios e dependente do Estado.
Perceba: os dois grupos constroem narrativas nas quais suas próprias virtudes são ressaltadas e os defeitos são concentrados no adversário.
A ciência política chama uma dimensão importante desse fenômeno de polarização afetiva: não é apenas discordar das ideias do outro, mas passar a rejeitar emocionalmente as pessoas que pertencem ao outro campo.
Um estudo publicado em 2026 na revista Nature Communications, baseado em pesquisas com aproximadamente 2 mil a 3 mil participantes, identificou uma polarização afetiva particularmente intensa entre lulistas e bolsonaristas. Nature Communications +1
B) A associação entre bolsonarismo e extrema direita tem fundamentos políticos específicos.
Aqui precisamos fazer uma distinção.
Não é correto afirmar que a classificação do bolsonarismo como movimento de direita radical ou extrema direita surgiu simplesmente de uma campanha de difamação.
Pesquisadores identificaram características concretas nesse movimento, entre elas:
* Conservadorismo cultural acentuado.
* Nacionalismo e mobilização religiosa.
* Retórica antissistema e antipetista.
* Defesa de posições econômicas liberais.
* Questionamentos de instituições e de procedimentos democráticos em determinados segmentos e momentos.
O cientista político Lucio Rennó, em artigo publicado na revista Estudos Avançados, da USP, analisa essas características na formação do eleitorado bolsonarista. Estudos Avançados +1
Mas existe uma ressalva essencial: classificar um movimento político não significa classificar moralmente todos os seus integrantes.
Um eleitor pode apoiar Bolsonaro por razões econômicas, religiosas, antipetistas, por preocupação com segurança pública ou simplesmente por rejeição a Lula. Não significa que compartilhe todas as posições do movimento.
### 2\. E por que o lulismo recebe uma imagem mais positiva?
Aqui está uma questão que merece bastante atenção.
Lula e o PT construíram uma identidade política fortemente associada a:
* Combate à pobreza.
* Inclusão social.
* Defesa dos trabalhadores.
* Direitos das minorias.
* Programas de transferência de renda.
* Ampliação do acesso à educação.
Essas bandeiras têm uma capacidade muito grande de produzir identificação moral positiva.
Afinal, quem se coloca contra a pobreza, contra a discriminação e a favor da inclusão social tende a apresentar uma imagem pública de solidariedade e preocupação com o próximo.
Mas há uma diferença entre defender esses objetivos e avaliar criticamente os meios utilizados para alcançá-los.
Por exemplo, é perfeitamente possível defender programas sociais e, simultaneamente, questionar:
* O tamanho do Estado.
* A eficiência da administração pública.
* O equilíbrio fiscal.
* A qualidade dos serviços públicos.
* O uso político dos programas sociais.
* A relação entre assistência social e autonomia econômica.
Da mesma forma, é possível defender políticas de mercado e não ser contrário à proteção social.
Portanto, não devemos confundir progressismo nos costumes, liberalismo político e intervencionismo econômico. São dimensões diferentes.
### 3\. Existe uma contradição na imagem ideológica do lulismo?
Existe uma questão conceitual importante na sua observação.
Você descreve um campo que seria:
* Liberal nos costumes.
* Progressista nas questões sociais.
* Favorável à intervenção do Estado na economia.
* Defensor de políticas públicas abrangentes.
* Favorável a um Estado com forte participação na distribuição de renda.
Essa combinação não é contraditória. Na ciência política, podemos encontrar essa orientação no campo da social-democracia e da esquerda progressista.
Mas é importante distinguir três conceitos:
| Conceito | Significado |
| --------------------- | -------------------------------------------------------------------------------- |
| Liberalismo político | Liberdades individuais, pluralismo, direitos civis e limites ao poder estatal. |
| Liberalismo econômico | Livre mercado, propriedade privada e menor intervenção estatal. |
| Progressismo social | Defesa de mudanças sociais, igualdade de direitos e ampliação de direitos civis. |
Uma pessoa pode ser liberal politicamente, progressista nos costumes e intervencionista economicamente.
Entretanto, isso não significa que todo lulista tenha essas características. O lulismo é uma coalizão bastante heterogênea, que reúne setores de esquerda, centro e grupos conservadores.
E há uma observação adicional: defender um Estado social forte não significa necessariamente defender um Estado socialista. São projetos econômicos diferentes.
### 4\. O que dizem as pesquisas mais recentes?
Há um dado particularmente interessante.
Uma pesquisa Ipsos-Ipec, realizada em agosto de 2026, a pedido da More in Common Brasil, identificou que simpatizantes de Lula e de Flávio Bolsonaro compartilham mais valores do que imaginam.
Entre os resultados:
* 86% dos simpatizantes de Bolsonaro concordaram que os pobres podem ascender socialmente, enquanto os lulistas estimavam essa concordância em apenas 69%.
* 94% dos simpatizantes de Bolsonaro concordaram com a igualdade salarial entre homens e mulheres, enquanto os lulistas estimavam 73%.
* 86% dos simpatizantes de Lula concordaram que pobreza não justifica crime, enquanto os bolsonaristas estimavam 67%.
A pesquisa ouviu 2 mil pessoas em 130 municípios. Ipsos +1
Isso é muito revelador: frequentemente, imaginamos nosso adversário mais radical do que ele realmente é.
### 5\. Afinal, por que um grupo acaba sendo visto como moralmente superior ao outro?
Eu identificaria quatro mecanismos:
1\. Identificação moral: cada campo associa suas bandeiras políticas a virtudes humanas, como solidariedade, patriotismo, liberdade e justiça.
2\. Enquadramento midiático: determinados acontecimentos, declarações e comportamentos são utilizados para caracterizar um movimento inteiro. Isso pode ser justificado em casos específicos, mas também pode produzir generalizações.
3\. Comunicação digital: as redes sociais favorecem conteúdos que provocam indignação, medo e hostilidade, reforçando estereótipos.
4\. Personalização da política: a identidade política passa a depender mais da adesão ou rejeição a Lula e Bolsonaro do que de um conjunto coerente de ideias.
### 6\. Minha síntese da questão
Há algo que considero essencial para uma análise política intelectualmente rigorosa.
Podemos criticar Bolsonaro por suas declarações, suas posições institucionais, suas decisões de governo e seu comportamento diante das instituições democráticas.
Podemos igualmente criticar Lula, seus governos, suas alianças políticas, suas decisões econômicas, seus discursos e a atuação do PT.
O critério deve ser o mesmo: examinar fatos, responsabilidades, resultados e princípios.
Não podemos transformar a crítica política em julgamento moral coletivo.
Aliás, há uma distinção que vale preservar:
* Ser conservador não é ser necessariamente reacionário.
* Ser de direita não é ser necessariamente autoritário.
* Ser de esquerda não é ser necessariamente democrático.
* Defender políticas sociais não é ser necessariamente socialista.
* Defender o mercado não é ser necessariamente insensível à pobreza.
Uma democracia saudável precisa admitir que pessoas honestas, inteligentes, solidárias e comprometidas com o país podem chegar a conclusões políticas diferentes.
E gostaria de deixar uma reflexão que considero particularmente pertinente à sua pergunta:
Se alguém precisa considerar moralmente inferior todo aquele que discorda de suas convicções políticas, será que está defendendo princípios democráticos ou apenas defendendo a superioridade do próprio grupo?
Essa é uma questão que merece ser examinada tanto pela direita quanto pela esquerda.
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