O ELO INVISÍVEL ENTRE O CORAÇÃO É CÉREBRO
O elo invisível entre coração e cérebro
O coração não é apenas uma bomba, e o cérebro não é apenas um comando. São parceiros de uma mesma sinfonia
Por Stephanie Rizk - 10/11/2025
Durante séculos, a medicina descreveu o cérebro como o comandante do corpo e o coração como seu fiel executor. Um dava ordens, o outro apenas respondia. Mas a ciência moderna tem revelado uma história bem diferente. Coração e cérebro formam um sistema integrado, uma via de mão dupla em que pensamentos, emoções e batimentos se entrelaçam num mesmo circuito. O cérebro influencia o ritmo cardíaco, e o coração, por sua vez, envia sinais que moldam nosso estado emocional e cognitivo. Essa comunicação constante , elétrica, hormonal e química explica por que sentimos o que pensamos e pensamos o que sentimos. O corpo, afinal, não separa razão e emoção; ele as traduz em impulsos que viajam de um órgão ao outro, sustentando o delicado equilíbrio entre mente e vida.
Não se trata de poesia, e sim de fisiologia. A neurocardiologia, campo que vem ganhando força na medicina, estuda justamente esse diálogo bidirecional entre os dois órgãos. O cérebro regula o coração por meio do sistema nervoso autônomo, ajustando o ritmo, a pressão e a variabilidade dos batimentos. Por sua vez, o coração envia sinais elétricos, químicos e mecânicos que influenciam regiões cerebrais ligadas às emoções, à atenção e à memória. O corpo, afinal, é um circuito de mão dupla.
Pesquisas recentes mostram que doenças cardíacas, hipertensão e rigidez arterial estão associadas a maior risco de comprometimento cognitivo e demência. O inverso também é verdadeiro: o estresse, a depressão e a ansiedade ativam de forma crônica o sistema nervoso simpático, elevam catecolaminas e inflamam o organismo, favorecendo arritmias, hipertensão e insuficiência cardíaca. O cérebro sente o que o coração vive, e o coração sofre o que o cérebro pensa.
Estudos com pacientes com fibrilação atrial revelam alterações estruturais em áreas cerebrais relacionadas à memória mesmo sem infarto aparente, sugerindo que o ritmo desordenado do coração pode ressoar na mente antes de qualquer sintoma neurológico. Em outra ponta, a chamada síndrome de Takotsubo, conhecida como “coração partido”, surge após choques emocionais intensos e provoca uma disfunção transitória do ventrículo esquerdo desencadeada por descarga maciça de adrenalina. É o cérebro em descompasso, ferindo o coração.
À medida que o corpo envelhece, o coração e o cérebro passam a compartilhar não apenas histórias, mas também fragilidades. Hipertensão, diabetes, apneia do sono e inflamação crônica são como fios invisíveis que conectam esses dois sistemas, alimentando um ciclo de danos mútuos.
Esse entendimento muda a forma de cuidar. Ao tratar o coração, devemos olhar também para o humor, o sono e a cognição. E, ao abordar a mente, devemos considerar os reflexos sobre o sistema cardiovascular. Cada emoção tem um pulso, cada batimento tem um pensamento.
A boa notícia é que proteger o eixo coração-cérebro está ao alcance de todos. Manter a pressão, o colesterol e a glicemia sob controle é tão importante quanto cuidar da saúde emocional. Praticar atividade física regular, dormir bem e conviver socialmente reduz o estresse biológico. Técnicas simples de respiração e atenção plena modulam a variabilidade cardíaca e estabilizam o sistema nervoso autônomo. E buscar ajuda médica quando o corpo e a mente se mostram em desequilíbrio é sempre um sinal de inteligência, não de fraqueza.
Os profissionais de saúde também precisam rever paradigmas. A integração entre cardiologia, neurologia e psiquiatria é o futuro da medicina moderna. Nenhum órgão existe isoladamente, e as doenças mais complexas exigem olhares complementares.
O corpo é um sistema de diálogos invisíveis. O coração não é apenas uma bomba, e o cérebro não é apenas um comando. São parceiros de uma mesma sinfonia. O som de um influencia o ritmo do outro, e a qualidade dessa música define a nossa saúde.
A PARTIR desse texto fiz o seguinte comentário:
Por Paulo Rebelo: Verdadeiro!
Assisto isso diariamente a cada consulta. Sendo médico, sou um privilegiado como testemunha viva desse milagre da vida, pois em termos gerais ocorre isso mesmo, mas de forma tão individualizada...Às vezes, me surpreendendo como as pessoas reagem diferentemente ao mesmo fenôneno; enquanto umas sucumbem com pouco e em tão pouco tempo, outras dão a volta por cima e são exemplo de vida para todos nós. Aprendo com todos sem que me digam um única palavra. A reflexão e conforto vem de seus comportamentos.
Assistindo isso, repleto de tantos sentimentos e emoções, que transbordam intensamente a ponto de me sufocar, sinto vontade de gritar, por isso escrevo e muito, inclusive agora. É o meu Lexotam, meu Lexapro.
As madrugadas insone, antes minha inimiga mortal, hoje, somos grandes amigos. É a hora que paro para respirar. Sobrevivi! É o meu PIT STOP. Nem todos me entendem, mas não importa, pois sei que o sapato aperta no calo de cada um de nós. Cada um carrega a sua cruz. Curiosamente, por obra de Deus, ele nos fez cruzar pelos caminhos da vida. Quando e como puder, havendo oportunidade, eu ajudo o outro a carregar seu fardo. Digo à minha clientela que o ideal seria que a gente fosse o médico um para o outro como conjuges, pais e filhos, patrão ecempregado (mas, é tão difícil), curando e aliviando o sofrimento da tumultuada relação que se reflete duramente no interior entre o binômio coração e cérebro.
Um forte abraço!
P. S. Perdi dois grandes amigos de infância na semana passada (cancer e coração). Acordei no meio da madrugada e escrevi-lhes um poema e envie aos seus familares. Creio que vão gostar.
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