A DOR QUE VICIA*
đ️A DOR QUE VICIA
Por Paulo Rebelo
A dor sofrida, creia-me,
Na dose terapĂȘutica existe;
Ă administrada ao homem
Em gotas homeopĂĄticas.
Ela tem um leve sabor agridoce;
Ă levemente ĂĄcida,
Até um tanto amarga,
Por vezes, ocorre nas longas
Noites insones; parece uma amiga
Na madrugada.
Pode ser curativa
Ocupa alguma perda,
Que jamais serĂĄ preenchida.
Também, funciona como bålsamo
Ou antĂdoto, depende,
Exercendo excelente profilaxia.
Tem uma fĂłrmula posolĂłgica
MĂĄgica e exclusiva,
Feita para o indivĂduo sob medida.
Ă como a ĂĄgua que sacia.
Hå um porém; todo cuidado
Ă pouco.
Essa dor nĂŁo Ă© isenta
De efeitos colaterais,
Causa dependĂȘncia fĂsica e mental;
Como acalma e anestesia,
Se prolongada, vicia.
Assim, Ă© que com o tempo,
O ser humano diante da dor compungente acostuma-se,
E quando nĂŁo o mata
De solidĂŁo,
Aos poucos dentro do do peito,
Estranhamente, o conforta
E cativa.
Paulo Rebelo, o médico poeta.
P.S. O poema foi escrito depois da dolorosa observação de alguns pacientes, que diante de tanto sofrimento, no fim, sem forças para lutar, estranhamente, acabam fazendo da dor sua companheira, vĂtimas da impiedosa dependĂȘncia de medicamentos psicotrĂłpicos.
Aconteceu, particularmente, a partir de uma frase "doutor Paulo, eu queria morrer, mas nĂŁo me deixe", dito por uma senhora hĂĄ muito tempo, fiquei impressionado, mas sem palavras, nĂŁo sabia como descrever essa complexa sensação que tive. Ela tinha que conviver com a perda da filha, ao mesmo tempo em que nĂŁo conseguia viver com sua morte por CA; tinha a neta por cuidar, que a todo tempo lhe lembrava a filha. Confuso, nĂŁo? Na Ă©poca, prescrevĂ-lhe antidepressivo e hipnĂłtico. Hoje, finalmente, consegui descrever o que nela percebi e o que eu senti.
Um grande abraço!
GOTAS HOMEOPĂTICAS
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